Neste
artigo abordamos uma situação comum nas empresas.
O conflito de interesses entre a área de vendas, que
tem como foco o atendimento às necessidades do cliente,
e a área de produção cujo foco é
a fabricação de produtos com a melhor qualidade
e menores custos. Propomos um modelo alternativo nesta relação
para diminuir os níveis de insatisfação
mútua.
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DESCREVENDO A SITUAÇÃO
Uma situação recorrente
acontece sempre que o mercado altera, para cima ou para baixo, os
níveis de demanda. Quando o consumo de determinado produto
diminui a área de produção vê sua capacidade
instalada atingir altos níveis de ociosidade e por conseqüência
custos maiores. Automaticamente a pressão sobre a área
de vendas aumenta significativamente na esperança de que
novas abordagens, a abertura de novos mercados ou mesmo a capacidade
de persuasão volte a equilibrar a situação.
Por outro lado, quando a demanda
acelera e a área de vendas absorve a tendência colocando
mais e mais pedidos junto à produção esta vê-se
as voltas com problemas de prazo de entrega, qualidade, lotes mínimos
de produção e insatisfação generalizada
por não permitir que a empresa aproveite o bom momento do
mercado.
Considerando que o “cumprimento
dos prazos de entrega” tornou-se um fator de competição
e por conseqüência um diferencial estratégico,
o atraso nas entregas penaliza duplamente as empresas. Impede que
novas vendas sejam realizadas e causa prejuízos aos clientes
que não podem dispor dos produtos adquiridos.
Na tentativa de minimizar este problema
as empresas investem em novas tecnologias de processo produtivo,
máquinas e operários multifuncionais, novos sistemas
de programação da produção, novos controles,
enfim procuram tornar a empresa “altamente flexível”.
O fato é que nem todos os tipos de empresa podem, por falta
de capital, ciclo de vida curto dos produtos, grande variedade de
itens finais, adequar-se à tão almejada flexibilidade.
Os sistemas de previsão da
demanda existentes também não oferecem informações
seguras para a área de produção. Indicam apenas
tendências e prováveis níveis de consumo, mas
não detalham o suficiente para que a produção
consiga organizar-se a tempo.
No gráfico a seguir esta
situação fica um pouco mais clara.

MERCADO : É constituído
pelo consumo de n itens x quantidades x preço, no qual a
empresa detem uma determinada participação. A variação
deste nível de consumo ao longo do tempo segue uma trajetória
subordinada aos fatores macro da economia. Juros, câmbio,
crédito, etc, influem diretamente sobre o montante deste
mercado. As técnicas de análise de cenários,
comportamento setorial e projeções econômicas
ajudam a identificar a tendência deste mercado.
CAPACIDADE INSTALADA: É o
total dos recursos disponíveis para a fabricação
dos produtos que o mercado irá consumir. É importante
salientar duas realidades em relação a “capacidade
produtiva”. A primeira é que existe um componente histórico
na composição da capacidade produtiva, isto é,
a empresa investiu em recursos que permitem atender a um determinado
mix de produtos, não sendo necessariamente na mesma proporção
do mix que o marcado consome. Outra questão relativa a capacidade
produtiva é de que ela não oscila conforme o mercado
ou a venda, ela sempre é estática num determinado
período de tempo. Exemplo: Se uma máquina adquirida
amplia em 10% a capacidade ela será 10% maior até
que uma nova máquina seja comprada, independente do volume
de vendas ou do comportamento do mercado naquele período.
“A definição
do mix de produtos (variedade e quantidade) e a capacidade instalada
para produzi-los é a mais importante decisão estratégica
de uma empresa, pois vai definir o tamanho da sua participação
no mercado” (Marcos Bercht)
VENDAS: O volume das vendas de uma
empresa está subordinado a alguns aspectos. O primeiro é
o tamanho do mercado e sua tendência naquele momento específico.
O segundo é o mix de produtos que a empresa produz estar
alinhado com o mix que o mercado está consumindo naquele
momento, e o terceiro fator é a capacidade que a empresa
tem de entregar no prazo estabelecido o que é vendido.
Quando acontece o descompasso entre
os prazos de entrega esperados pelo cliente e os que efetivamente
a produção pratica temos um alto nível de stress
na relação entre as duas áreas. A área
de vendas reclamando que não consegue atingir as metas previstas,
que está perdendo vendas e que os clientes estão insatisfeitos.
A área de produção por sua vez, reclama da
falta de uma previsão de vendas mais exata, da falta de recursos
para atender a demanda e a necessidade de alterar seu processo –
com foco na produtividade – gerando aumento dos custos.
O MODELO IDEAL.
O modelo dos sonhos de todo gestor
é o MRP II funcionado como um relógio.
Plano Mestre de Vendas (feito pela
área de vendas e sem alterações)
Plano Mestre de Produção
(analisado e elaborado a partir do plano mestre de vendas)
Plano de Necessidades de Material
( com base no plano mestre de produção), e assim por
diante.
Muito lógico, muito adequado,
mas altamente improvável, por uma razão básica.
O mercado não lê os nossos planos tampouco os leva
em consideração no seu movimento. Sem falar nos concorrentes,
todos eles buscando nos tirar pedaços do mercado que conquistamos
a duras penas.
Manter o conceito de “produção
puxada” pelo mercado, isto é, atrelada ao mix de vendas
tanto em tipo (variedade de itens) como em quantidade exige que
a organização do processo produtivo seja altamente
flexível, o que já vimos é um estágio
nem sempre possível de alcançar pelas empresas. Mesmo
com altos investimentos e o constante risco de acentuar a ociosidade
da capacidade instalada, nem sempre o mix da capacidade produtiva
atende integralmente o mix de vendas, no tempo e na variedade de
itens.
O MODELO ALTERNATIVO.
Quando a área de vendas constata
que a sua fábrica não consegue manter o nível
de serviço desejado, não conseguindo, a curto prazo,
cumprir os prazos de entrega necessários é fundamental
fazer algumas escolhas. Melhor manter o nível de atendimento
a alguns clientes selecionados ao invés de espalhar insatisfação
pelo mercado todo.
Alguns passos podem minimizar o
efeito da falta de sincronia entre o que está sendo absorvido
pelo mercado (vendido) e o que a fábrica pode efetivamente
entregar.
1 ) Elaborar plano de vendas Seletivo,
listando os principais clientes, tanto pelo critério ABC,
bem como pelo papel estratégico que os mesmo representam;
2 ) Somar os itens adquiridos por
estes clientes até chegar ao total de 70% do objetivo de
faturamento;
3 ) Negociar com a área de
produção o atendimento prioritário destes clientes,
em mix e prazo de entrega;
4 ) Negociar com os clientes a antecipação
dos pedidos ou programações para que a fábrica
tenha, o mais cedo possível, a discriminação
do que deverá produzir;
5 ) Garantir aos clientes selecionados
100% da entrega dos itens (variedade e quantidade) do último
pedido efetuado.
6 ) Orientar o setor administrativo
de vendas para a execução da política de venda
seletiva;
6) Para o restante dos clientes
a venda segue normal com o nível de serviço o mais
próximo possível do ideal.
É importante esclarecer que
a percepção do cliente sobre o nível de serviço
é sempre relativa e não absoluta. Se o cliente receber
um pedido com 10 dias de atraso ficará insatisfeito se os
outros fornecedores entregarem seus pedidos com um atraso menor
que 10 dias. Contudo se os demais fornecedores também não
cumprem prazos de entrega o nível se serviço será
balizado pelo fornecedor que menos atrasar suas entregas.
O modelo apresentado é uma
alternativa para algumas situações:
a) Quando o mercado se expande com
uma velocidade maior do que a empresa pode ampliar sua capacidade
produtiva;
b) Quando as flutuações
de demanda não aconselham que a empresa faça investimentos
que deixariam a capacidade produtiva com altos índices de
ociosidade nos períodos de baixa demanda.
c) Quando eventualmente um concorrente
tem problemas de entrega.
A principal discussão numa
empresa deve ser “qual é a sua proposta de mercado?”.
Definir claramente o que fazer e quando fazer permite que a área
de vendas foque seu trabalho no grupo de clientes que efetivamente
trará resultados à empresa.
Os conflitos entre a área
de vendas e produção, na maioria das vezes se dá
pela falta de sincronia entre o que o mercado está absorvendo
naquele momento e a efetiva capacidade instalada.
Boa sorte, boas
vendas e até o próximo artigo!

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